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Mensagem da Equipe de Mentores Espirituais da SECE

  • 1 de dez. de 2018
  • 5 min de leitura

Uma estrela caiu do céu.

Ela veio para iluminar a minha vida. Nas noites de escuridão foi ela que orientou os meus passos. Evitou que eu tropeçasse nas pedras que encontrei no meu caminhar, afastando-me dos precipícios morais que poderiam fazer-me lamentar uma queda mais adiante.

Durante o dia essa estrela transformava-se num sol mágico. Resplendia carinho e doçura, aquecia o inverno que fazia doer o meu imo ao observar seres insensíveis às dores e às provações alheias.

Com ela aprendi a força que contém a fraternidade. À sua luz eflúvios vigorosos derramavam-se no dia a dia da minha vida. Eles tornavam-me mais cariciosa às amarguras dos meus pares de jornada terrena, por me proporcionar a compreensão de que mais vale um pequeno ato realizado com sinceridade e amor do que apontar defeitos que empobrecem um coração feito para amar e querer bem. Deus foi, assim, misericordioso para comigo.

Procurei os tesouros encobertos dentro de mim, mas precisei de muito esforço para descobri-los, de modo que assim contei com a ajuda da minha estrela-guia para tanto. Não fosse o seu auxílio, por certo eu teria me perdido na estrada da vida.

Minha estrela, o sol da minha vida, veio ao meu encontro num momento muito particular da minha jornada terrena, quando então a minha fé no Criador Eterno havia sido reduzida a pó. Todavia, em um instante extremo no qual até pensei em suicídio, senti a sua presença a tocar-me o coração. Então um fulgor se acendeu dentro de mim, a razão aflorou à consciência ao esclarecê-la que nós não somos donas absolutas das nossas aspirações mais íntimas, muito menos do corpo que clama por amar outro alguém com recato, respeito e liberdade.

Até então a minha vida havia sido um fracasso. Eu me achava diferente, a perturbação movia as minhas entranhas à procura de respostas que eu não conseguia obter. Perguntava-me: por que Deus houvera por me fazer diferente dos demais, quando eu observava nos lares a felicidade proporcionada pela união entre homem e mulher a gerar filhos, prole numerosa para participar das alegrias do lar? Mas eu, ao contrário, por que detinha sentimentos e objetivos diversos? Acaso eu mulher estava proibida de amar um ser igual a mim, tão feminina quanto eu? Eu brigava com estes sentimentos. Emoções a mim incutidas por uma família tradicionalmente ligada ao catolicismo que não admitia de forma alguma o que ela interpretava como aberração da natureza.

Até a minha adolescência sofri com os preconceitos que eu mesma me imputava, por não me ver como uma menina normal. Esse fato muitas vezes quase me levou à depressão, a uma vontade louca de morrer para não envergonhar os meus pais nem meus irmãos.

Um dia, aos 18 anos de idade, em um período no qual estava me preparando para ingressar no Ensino Superior, conheci Ana Lúcia. Uma jovem morena, linda, exuberante, que mexeu muito comigo. Ela era belíssima, e a princípio não percebeu os olhares apaixonados que eu lhe direcionava.

Certo dia nós tivemos um primeiro contato. Embora fortuito, rápido, não intencional, acabamos por nos apaixonar. Seguiram-se outros mais encontros, o que de certo modo acabou por nos unir. Tornamo-nos amigas íntimas a ponto de abrirmos nossos corações, dialogando francamente sobre nossos sentimentos mais secretos. Foi em uma conversa dessas que descobrimos que nós duas tínhamos “problemas” idênticos, tanto de aceitação pelos outros quanto de natureza e preferência sexual. No entanto, descobrimos que dentro de nós mesmas combatíamos com vigor essas emoções as quais considerávamos vergonhosas.

Juntas, abraçadas, choramos as desventuras que sabíamos que teríamos que enfrentar na vida. Nossas lágrimas foram copiosas e abundantes, entrecortadas por soluços amargos. Mas, ao mesmo tempo, descobrimos o amor verdadeiro e puro. A compreensão unia duas almas parelhas, que no esforço de ajudar-se mutuamente entenderam que eram as mãos de Deus que atuavam sobre elas. Elas juntavam-nas para vencer desafios, para aprender a conviver com as diferenças interiores que as provas existenciais lhes imputavam. Então decidimos falar às famílias.

Minha família, porém, não aceitou a minha relação com Ana Lúcia. No dia do meu aniversário de 19 anos eu fui expulsa de casa. O desespero tomou conta de mim.

Fui procurar Ana Lúcia na sua casa. Mas lá também o tumulto estava formado. Família igualmente tradicional no catolicismo tanto quanto a minha, da mesma forma ela não acatou a opção da minha namorada. De modo que de um momento para outro ambas estávamos no olho da rua, sem eira nem beira, sem lugar onde pudéssemos nos acomodar provisoriamente.

Foi então que nos lembramos de Paulinho, um amigo comum. Ele nos amparou no seu apartamento até que nós duas pudéssemos nos aprumar na vida. Compreensivo, lastimou conosco o nosso destino, chegando ao ponto de prantear a nossa sorte.

Mas, uma vez mais, Deus foi misericordioso. Em breve tempo nós duas conseguimos emprego. Nunca, porém, nos revoltamos contra os nossos familiares. De modo oposto, compreendemos o fardo deles. Seria muito pesado, visto que segundo a fé deles era inadmissível algo que contrariava as leis de Deus. Porém, não refletiam tais situações a ocorrer espontaneamente, sem intervenção das personagens envolvidas.

Durante 35 anos vivemos uma vida de recato. Ninguém jamais soube sobre a nossa vida conjugal, porque sempre procuramos preserva-la da curiosidade alheia e das personalidades que fizeram parte da nossa jornada na terra. Durante esse período buscamos as respostas às questões que nos atormentavam a alma, porém jamais obtivemos explicações aceitáveis a este respeito.

A religião que mais se aproximou de um esclarecimento conclusivo foi o Espiritismo, que nos demonstrou a possibilidade do Espírito imortal poder renascer em corpos femininos e masculinos, haja vista essa centelha divina não possuir sexo, e, desse modo, manter as tendências afetivas inerentes às encarnações imediatamente anteriores.

Nosso relacionamento nos permitiu compreender que é preciso amar sem restrições os nossos semelhantes. Que não importa raça, cor nem credo, muito menos preferência sexual, o respeito e o amor devem prevalecer. Aprendemos a ser mais fraternas e solidárias. Este feito nos impulsionou à fundação de uma ONG que ampara crianças, jovens e adultos, que permeiam sentimentos e inclinações voltadas às questões de gênero e identidade sexual.

Após 35 anos de convívio feliz, Ana Lúcia se foi para a Espiritualidade. Ela foi uma estrela que desceu do céu para fortalecer-me nas lides terrenas, iluminando os meus passos e a minha mente. Mostrou-me que é sempre o amor e a consideração para com o próximo que fazem com que o mundo se transforme em algo melhor, uma escola mais fraterna e solidária, onde cada qual que transita sobre ela veja no seu semelhante um ser igual a si mesmo, com as mesmas necessidades de amar e de ser amado plenamente.

Ana Lúcia foi igualmente o sol da minha vida. Foi com ela, e por ela, que conheci o calor que brota do amor puro, verdadeiro, a unir duas almas sobre a Terra. Duas almas que um dia se encontram para revelar ao ser humano que independente dos laços que constituem uma família tradicional, ninguém é órfão desse direito tampouco está imunizado de nascer com sentimentos homoafetivos para jornadear sobre a terra, rumo à perfeição espiritual.

Um ano após a morte de Ana Lúcia eu desencarnei, vitimada por uma úlcera estomacal que brevemente converteu-se em um câncer que se disseminou sobre todo o meu organismo físico. Nos meus minutos finais um clarão forte, intenso, fez-se sobre o quarto em que eu esperava a morte.

Senti uma paz profunda, um toque suave sobre o meu coração. Ao abrir os olhos espirituais foi com alegria que vi Ana Lúcia a me estender a sua destra, oportunidade em que ouvi o seu pensamento:

- Venha, minha querida. Cumprimos nossa prova com êxito. Agora é tempo de descanso, é momento de nos prepararmos para as lutas do porvir. E tudo, então, terminou.

Thereza Assunção

Sugestão de leitura:

EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

"A LEI DO AMOR”, CAP. XI, ITEM 9

 
 
 

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